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20 de dezembro de 2011

É Natal!


Luzinhas de Natal piscando e “fantasmões”* enfeitados peculiarmente anunciam um fim de ano repleto de reticências. Grandes decisões pairando nas proximidades da minha vidinha “friamente calculada” deram a sacudida que faltava para tirar meus pés do lugar. O pulo discreto que tardou a acontecer acendeu uma faísca que despontou sorrateiramente, mas já fincou raízes. Mudança é a palavra de ordem, enquanto profiro algumas preces insensatas, esperando a incidência de um milagre. Mas milagres não costumam ser provocados, nem anunciam abertamente a chegada. O raio cai onde menos se espera! Bem, é Natal. A época não poderia ser mais propícia, mesmo fatigada por promessas lançadas a esmo. Todo ano é igual! Por isso é hora de mudar. O primeiro passo é começar uma reconciliação com o espelho; juntar os cacos de vidro e montar o quebra cabeças, até destruir a relação viciosa com os velhos paradigmas há muito tempo alimentados; dar conta das urgências; galgar patamares superiores; ter orgulho do que faço... Nos meus sonhos, eu me vejo como um cacique** desbravador de matas, descobrindo passo a passo uma Vila de São Gonçalo, anunciando batalhas contra as certezas absolutas grosseiramente impostas, e, quem sabe, enfrentar degraus e dragões, na esperança de tornar a vida mais amena, enquanto moinhos de vento continuam girando. No final, sem saber se é sonho ou realidade, quero encobrir altivamente a paisagem com minha carcaça***, sob o olhar atento das pipiras, como um prenúncio de que nada foi em vão.

* Nome dado jocosamente pela população teresinense às “árvores de Natal” distribuídas pela cidade.

** Referência ao Cacique Bruenque.

***Ver http://becodabolinagem.blogspot.com/2010/02/os-ossos-do-cacique.html

15 de dezembro de 2011

A fuga do Padroeiro

Imagem de São Gonçalo de Regeneração (PI)

Dizem que depois que Amarante foi elevada à Sede da Freguesia (Paróquia), passou a abrigar a imagem do padroeiro São Gonçalo na igreja matriz. À noite, milagrosamente São Gonçalo retornava à Igreja de Regeneração como se jamais tivesse saído do antigo assento. Inconformados, os Amarantinos apressavam-se para resgatar a santa imagem, e devolvê-la para o lugar de direito.

Com o tempo, a verdade acabou vindo à tona: a fuga de São Gonçalo era orquestrada pelos próprios Regenerenses, que, na calada da noite, atravessavam as fronteiras da vizinha Amarante, trazendo de volta a imagem do Santo que sempre protegeu a cidade.

O certo é que São Gonçalo é poderoso o suficiente para proteger tanto uma quanto a outra. Uma imagem nunca garantiria tal proteção, mas a fé que contagia o povo só precisa de uma lembrança para propagar a devoção. O padroeiro continuava a ser o mesmo nas duas cidades, mas uma imagem distinta precisou ser adquirida pela antiga Sede, evitando futuras fugas do cobiçado Santo.

É só uma lenda...


"As maravilhas da graça
Com alegria vibrante
Olhando e imitando
São Gonçalo do Amarante".
(Trecho do hino de São Gonçalo de Amarante)


"São Gonçalo bom padroeiro
Da nossa amada Regeneração
Lá no céu, aos pés de Deus
Te confiamos a nossa salvação".
(Trecho do hino de São Gonçalo de Regeneração)

5 de outubro de 2010

Um não-lugar para chamar de meu

Por A. C. Nunes-Carvalho

As cidades se reinventam com projetos arquitetônicos voluntariosos, que acompanham a rapidez e a diversidade dos acontecimentos modernos, subjugando "lugares de vida produzidos por uma história mais antiga e mais lenta"*.

No Piauí, o resultado mais significativo desta equação pode ser facilmente exemplificado pelo surgimento de imponentes construções, em detrimento da conservação do casario colonial das cidades históricas. Pululam progressos, desconcertando o estilo arquitetônico e transformando harmonia em ecletismo desmedido.

Aos olhos de um observador mais detalhista, tal configuração pareceria fora de contexto, alienada ou contraprodutiva, causando desconforto, ao invés de propiciar empatia, em decorrência da sobrecarga de informações visuais, caracterizando, assim, os não-lugares.

Emerge, então, a necessidade de resgatar as memórias: no mundo fragmentado, o derradeiro movimento de sobrevivência é retornar à tradição. O ambiente tornar-se-ia confiável e circunscrito, refletindo fielmente a identidade do povo que nele habita.

* AUGÉ, Marc. Não-Lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Papirus: Campinas, 1994.


Pátio interno de um casarão colonial de Regeneração (PI), demolido em outubro de 2010 para a construção de uma loja de conveniência.

Interior do casarão colonial

Detalhe do mosaico que recobria o piso do casarão

1 de abril de 2010

Meus Sonhos, Meus Amores

Por A. C. Nunes-Carvalho

O artista faz correr vinho no leito do rio, só para lembrar que é água, na verdade, que corre e atravessa nossos caminhos, assim como os becos e os vultos de rua revelados em histórias e retratos que os olhares desatentos deixaram de notar.

Enquanto aguardam as pinceladas, ou as palavras em verso e prosa, os acontecimentos são subjugados pelo tempo e relegados ao esquecimento. Não é preciso romper com os hábitos tolos, desprovidos de encanto à primeira vista, pois é justamente aí que se encontra o verdadeiro encantamento. Também não é preciso apontar mil holofotes em direção à agulha no palheiro - não podemos esquecer que o excesso de luz cega tanto quanto a falta. O que vale é transformar a realidade em uma parte indispensável de nós mesmos. E se somos seres de carne e pensamento, todas as nossas partes, indispensáveis ou não, estão sujeitas aos mandos e desmandos da imaginação. Não é possível fugir de tal preceito. Ou é?

"Existirmos: a que será que se destina?" – perguntaríamos atordoados diante do espelho. Quanto, da realidade, perdemos? Qual parte ficou esquecida? Quando foi que a imaginação nos esqueceu em alguma fila indiana (de carros, gente ou gado)?

O escritor e jurista Manoel Paulo Nunes, em 1976, lembrara daqueles que "representam a poesia em estado elementar", ao compará-los com Maria do Socorro Santana Ramos* em seu livro de estréia "Meus Sonhos, Meus Amores". A Dona Socorro Santana, regenerense, transformava o cotidiano em poesia e melodia, trazendo à tona os fatos sob os auspícios da sua imaginação. Parece que, naquele tempo, "as nascentes do rio Mulato borbulhavam, puras e cristalinas". Hoje, o que nos resta é a destruição gradativa da vegetação nativa em prol da monocultura de eucalipto e da movimentação momentânea da economia da região. Mais cedo ou mais tarde, quando as reservas secarem e o cultivo da matéria-prima para queimar nos fornos for inviável, não haverá mais motivos para os nobres responsáveis pelo progresso continuarem na terra de Bruenque.

No tempo em que a D. Socorro Santana criava seus versos diante das paisagens regenerenses, as nascentes borbulhavam mais, as "velhas mangueiras" ainda vigiavam passos, e o "verde das bananeiras" e das "canas brejeiras" ainda faziam "gosto de ver".

Hoje, nos curvamos diante dos sinais vermelhos, dos pastos verdes para o gado contente (!) e dos crachás determinando a nossa identidade. "Existirmos: a que será que se destina?"

*Filha de Abdon José de Santana e Luisa Oliveira Santana. Casada com Raimundo Moreira Ramos e mãe de nove filhos. Membro da União Brasileira de Escritores – UBE/ Piauí. Fundadora da Academia de Letras do Médio Parnaiba, sediada em Amarante-PI.



Vídeo garimpado no youtube, publicado por "funaguas - Fundação Águas do Piauí", em 20 de fevereiro de 2010.


Vídeo garimpado no youtube, publicado por "funaguas - Fundação Águas do Piauí", em 14 de março de 2010.

28 de fevereiro de 2010

Os Ossos do Cacique

Atraído por histórias-não-contadas, o viajante percorre as vielas da cidade e se embrenha nas facetas do desconhecido. Nos sonhos sublimados, ele implorava para que a estrela no alto da Serra Azul lhe indicasse o caminho, assim como os três reis magos foram guiados à manjedoura, na noite de Natal. A estrela, entretanto, aos olhos dos desbravadores, revelou-se simplesmente uma cruz deixada no topo da Serra por algum pagador de promessas. A guia celeste, agora sob o manto da realidade, perdeu o encanto que lhe conferia o ar divino. Porém, no retiro onírico do viajante sonhador, nenhuma lenda perde sua essência. Ele ainda sonha, implorando para que a cruz-estrela da Serra Azul lhe indique o caminho.

Ora, ali, outrora, um Gonçalo Lourenço Botelho de Castro não teria a mesma facilidade ao intentar estabelecer-se em terras tão disputadas. Sem estrelas ou cruzes, mas com a promessa de progresso, a luta desleal travada na terra nada-santa revelou-se sangrenta e desnecessária, afinal os jesuítas já haviam sido expulsos e os acoroás e gueguês encontravam-se encurralados, desestruturados e paralisados. Talvez o sangue derramado tornasse mais fértil o solo enlutado, tal como as terras fecundas, testemunhas dos campos de concentração. Mas a matança em grande escala não mereceu tamanha consternação. Um Bruenque, cujos ossos foram esquecidos na Vila de São Gonçalo, poderia fazer brotar ouro, como se seus restos mortais fossem preciosas sementes, e, ainda assim, seu nome não seria entronizado como um grande Governador, ou lembrado como um herói tentando salvar, em vão, seu povo e sua história. Enfim, os gentios foram silenciados e a paz se estabeleceu na terra do santo de carne, osso e título nobiliárquico. Multiplicaram-se os azulejos portugueses, os sobrenomes pomposos e estrelas indicando caminhos virtuosos (ou cruzes apontando sonhos mortos).


Por A. C. Nunes-Carvalho