Por A. C. Nunes-Carvalho
"A felicidade nos deixa meio palermas", concluiu o "filósofo" Emanuel Feitosa*. Eu não diria "palermas"; eu diria "não-humanos". Ora, o que caracteriza um humano é a consciência da realidade; consciência, na maioria das vezes, extremamente moralizada. Tal moralidade só sobrevive e se multiplica sob o olhar do outro. Um olhar que vigia e dita regras, pelo menos para aqueles que pretendem manter-se em sociedade. Com as restrições, próprias da racionalidade, a felicidade reduz-se a simples instantes, onde um "humano" consegue ser "não-humano": comer o que quer, sem se preocupar com a ditadura do corpo perfeito; falar alto, sem medo de sofrer represálias; sorrir intensamente, não ofendendo ou irritando a pessoa ao lado, porque a pessoa ao lado simplesmente não está controlando seus passos.
Controlar os passos é o artifício mais utilizado por quem tem medo das “pedras” que atravessam seu caminho. Mais regras são lançadas para impedir que as “pedras” se amontoem irreversivelmente. Daí, surgem mais bancos, mais dinheiro, mais sinais, mais carros, mais objetos inúteis, com um único objetivo de diferenciar o que deve ou não permanecer no caminho. Certamente, não são as “pedras”.
Um "não-humano" provavelmente agregaria as “pedras” à sua coleção "inconsciente", ao invés de tirá-las do caminho. Diminuiriam os bancos, os carros, as cercas e a distância entre uma “pedra” e outra; todas "não-humanas". Nas rodas de conversa "não-humanas", as melhores piadas teriam os mesmos protagonistas: homens criando regras que controlam homens! E, no final, os heróis de fachada precisariam construir castelos no ar, inalcançáveis como Pasárgada, só para amenizar o peso da parafernália que lhe impuseram nas costas: fios que controlam seus movimentos, ou melhor, regras que ditam o próximo passo.
Talvez este discurso estivesse oculto nas palavras de Coelho Neto, ao citar Sylvio Romero, no discurso de recepção de Osório Duque Estrada na Academia Brasileira de Letras"**:
"Ninguem imagina como eu quero bem a isto, como acho isto bonito! Este sol que não se cansa de nos dar belleza (sic) e fartura e dengue ás (sic) nossas mulheres, palavra que, ás (sic) vezes, tenho vontade de o adorar porque é verdadeiramente um deus! Qual literatura! Si (sic) vocês querem poesia, mas poesia de verdade, entrem no povo, mettam-se por ahi (sic), por esses rincões, passem uma noite num rancho, á beira do fogo, entre violeiros, ouvindo trovas de desafio. Chamem um cantador sertanejo, um desses caboclos destorcidos, de alpercatas e chapéo (sic) de couro, e peçam-lhe uma cantiga. Então, sim.
Poesia é no povo. Poesia para mim é agua em que se refresca a alma e esses versinhos que por ahi (sic) andam, muito medidos, podem ser agua, mas de chafariz, para banhos mornos em bacia, com sabonete inglez (sic) e esponja. Eu, para mim, quero aguas fartas – rio que corra ou mar que estronde. Bacia é para gente mimosa e eu sou caboclo, filho da natureza, criado ao sol”.
Se Coelho Neto tivesse conhecido Amarante, e observado suas belas paisagens, assim como observara Teresina, conferindo-lhe o título de Cidade Verde, talvez, do alto do mirante, gritaria algum título poético que ficaria encravado nos livros de literatura e na alma dos amarantinos, como uma Pasárgada ao alcance de todos, humanos e "não-humanos". Só que, estes últimos, filhos da natureza, criados ao sol, veriam a poesia que escorre nos rios Canindé, Mulato e Parnaíba; cantariam em versos o sorriso descontraído do seu povo; seriam amigos do rei, porque todo mundo é rei; e saberiam valorizar a poesia de verdade, a poesia que vem do povo; as regras hipócritas não os sobrepujariam; e o olhar do outro não seria uma arma cruel, certeira e injusta. A civilização seria outra, e as “pedras”, finalmente, seriam chamadas de homens.
Controlar os passos é o artifício mais utilizado por quem tem medo das “pedras” que atravessam seu caminho. Mais regras são lançadas para impedir que as “pedras” se amontoem irreversivelmente. Daí, surgem mais bancos, mais dinheiro, mais sinais, mais carros, mais objetos inúteis, com um único objetivo de diferenciar o que deve ou não permanecer no caminho. Certamente, não são as “pedras”.
Um "não-humano" provavelmente agregaria as “pedras” à sua coleção "inconsciente", ao invés de tirá-las do caminho. Diminuiriam os bancos, os carros, as cercas e a distância entre uma “pedra” e outra; todas "não-humanas". Nas rodas de conversa "não-humanas", as melhores piadas teriam os mesmos protagonistas: homens criando regras que controlam homens! E, no final, os heróis de fachada precisariam construir castelos no ar, inalcançáveis como Pasárgada, só para amenizar o peso da parafernália que lhe impuseram nas costas: fios que controlam seus movimentos, ou melhor, regras que ditam o próximo passo.
Talvez este discurso estivesse oculto nas palavras de Coelho Neto, ao citar Sylvio Romero, no discurso de recepção de Osório Duque Estrada na Academia Brasileira de Letras"**:
"Ninguem imagina como eu quero bem a isto, como acho isto bonito! Este sol que não se cansa de nos dar belleza (sic) e fartura e dengue ás (sic) nossas mulheres, palavra que, ás (sic) vezes, tenho vontade de o adorar porque é verdadeiramente um deus! Qual literatura! Si (sic) vocês querem poesia, mas poesia de verdade, entrem no povo, mettam-se por ahi (sic), por esses rincões, passem uma noite num rancho, á beira do fogo, entre violeiros, ouvindo trovas de desafio. Chamem um cantador sertanejo, um desses caboclos destorcidos, de alpercatas e chapéo (sic) de couro, e peçam-lhe uma cantiga. Então, sim.
Poesia é no povo. Poesia para mim é agua em que se refresca a alma e esses versinhos que por ahi (sic) andam, muito medidos, podem ser agua, mas de chafariz, para banhos mornos em bacia, com sabonete inglez (sic) e esponja. Eu, para mim, quero aguas fartas – rio que corra ou mar que estronde. Bacia é para gente mimosa e eu sou caboclo, filho da natureza, criado ao sol”.
Se Coelho Neto tivesse conhecido Amarante, e observado suas belas paisagens, assim como observara Teresina, conferindo-lhe o título de Cidade Verde, talvez, do alto do mirante, gritaria algum título poético que ficaria encravado nos livros de literatura e na alma dos amarantinos, como uma Pasárgada ao alcance de todos, humanos e "não-humanos". Só que, estes últimos, filhos da natureza, criados ao sol, veriam a poesia que escorre nos rios Canindé, Mulato e Parnaíba; cantariam em versos o sorriso descontraído do seu povo; seriam amigos do rei, porque todo mundo é rei; e saberiam valorizar a poesia de verdade, a poesia que vem do povo; as regras hipócritas não os sobrepujariam; e o olhar do outro não seria uma arma cruel, certeira e injusta. A civilização seria outra, e as “pedras”, finalmente, seriam chamadas de homens.
* Estudante do Curso de Direito, em Teresina-PI.
**MOTTA, Leonardo. Cantadores: Poesia e Linguagem do Sertão Cearense. Rio de Janeiro: A.J. de Castilho, 1921.
