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27 de setembro de 2013

Um sopro familiar de cultura

O querido Prof. Melquíades Barroso de Carvalho Filho enviou, gentilmente, pérolas do seu valioso arquivo.


5 de junho de 2010

Os Segredos de Quixote


Por A.C. Nunes-Carvalho

Afinal, quando essas aves deixarão seus pés saírem do chão? De pipiras a papagaios, todos escalpelados, em redomas invisíveis e intransponíveis! Cheios de uma lógica desgastada, vendida no varejo, em uma esquina qualquer, por algum descrente, desconhecedor da força destruidora da infeliz mercadoria.

Eu ainda quero ver uns meninos desafiando tardes, sob o sol amarantino, desmembrando obstáculos, até refazer um antigo trajeto, há muito tempo esquecido, quando o Morro de São Benedito transformava-se num “gigantesco tobogã”*, serpenteado por saudosas brincadeiras.

Hoje, os meninos já nascem adeptos do movimento anti-quixote, transformando dragões em moinhos de vento: estáticos, concretos e insustentáveis. Dificilmente veríamos novamente um quadro similar às repúblicas recifenses da primeira década do século XX, lotadas de piauienses, em plena profusão literária. Naquele tempo, a imaginação era tão profícua que permitia produções poéticas até mesmo em meio a um ataque de pragas, como pulgas. Da Costa e Silva, um dos estudantes, produzira estes versos:

“Deixai-me, pulgas, deixai-me,
Que já não tenho mais sangue
Ide pras barbas do Jaime
Embora o Jaime se zangue!”**

Um contemporâneo de Da Costa e Silva, Celso Pinheiro, também piauiense, já demonstrava, naquela época, o descontentamento dos visionários em relação à sociedade do seu tempo, adepta apenas das atitudes rotineiras. Tal postura minimizaria, anos mais tarde, o estranhamento em relação à sociedade atual, em nada diferente daquela. Os versos criados por Celso Pinheiro seriam proféticos, se também não expressassem a realidade do seu tempo:

“Nada sou, nada tenho, nada valho...
Acusam-me, entretanto, de preguiça,
Mostrando-me a legenda da cobiça
Na bandeira radiosa do trabalho!...

E eu que vibro dos céus o ardente malho
Na forja da beleza e da justiça,
Por que hei de ter assim a alma submissa,
Falho de glórias, de fortuna falho?!

Será possível que, pelo universo
Não seja mais um prêmio de conquista
O velho caso vínico do verso?

Que neste mundo trágico e medonho,
Não haja mais lugar para um artista,
O misterioso lázaro do sonho?!”**


Destituído de seu lugar ao sol, o artista perde o verbo, e cala-se na penumbra da rotina, inerte e morbidamente aceito pela sociedade.

* Expressão retirada de uma poesia de Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, em suas Trovas à Terra Distante, no livro Impressões e Perspectivas, citado por Nazi Castro: "Em Amarante é de graça/ Gigantesco tobogã/ Fica no morro da Praça/ Nunca deixa calça sã..." O "Escorrega" era uma brincadeira comum entre as crianças amarantinas, até a segunda metade do século XX. Do alto dos morros, as crianças escorregavam através de uma cama de folha de mufumbo (planta nativa da região). O Morro do Pontal também era utilizado para este fim lúdico.
** QUEIROZ, Teresinha. Os Literatos e a República: Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e as tiranias do tempo. 2. ed. Teresina: Editora da UFPI; João Pessoa: Editora da UFPB: 1998. p. 96 e 156.

12 de fevereiro de 2010

Antônio Francisco da Costa e Silva


Antônio Francisco da Costa e Silva nasceu em Amarante, no Piauí, em 29 de novembro de 1885. Formou-se pela Faculdade do Direito do Recife. Foi funcionário do Ministério da Fazenda, tendo ocupado os cargos de Delegado do Tesouro no Maranhão, no Amazonas, no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Viveu não só nas capitais desses estados, mas também, por mais de uma vez, em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Jornalista. Recolheu-se ao silêncio, demente, em 1933. Faleceu em 29 de junho de 1950.

Publicou os seguintes livros de poemas: Sangue (1908), Zodíaco (1917), Verhaeren (1917), Pandora (1919) e Verônica (1927). Organizou ele próprio uma Antologia de seus versos, cuja primeira edição é de 1934. Posteriormente saíram mais duas edições; a última em 1982. De suas Poesias Completas publicaram-se três edições: em 1950, 1975 e 1985.


Por Melquíades Filho

Amarante


Por Ana Candida Nunes Carvalho

A cidade se ergue, sorrateira, num suspiro de progresso, desmembrando sonhos e promessas proféticas no encalço dos caminhos guiados pelas curvas do Velho Monge. Os olhos tentam capturar a alma que atravessa as paredes resistentes às intempéries, como um escultor tentando, em vão, imitar a vitalidade que exala da geografia humana.

Amarante nos envolve, sublime, com sua espessa neblina matutina, e se transforma, inteira, em poesia e história, logo no primeiro olhar do visitante. Ergue as cortinas num lance súbito, desafiando o expectador a um encontro. Seus becos, suas igrejas, seu mirante revelam-se beijos cálidos e úmidos, como as tardes de verão sob o sol poente.


A minha terra é um céu, se há um céu sobre a terra;
É um céu sob outro céu tão límpido e tão brando,
Que eterno sonho azul parece estar sonhando...
Sobre o vale natal que o seio à luz descerra...

Que encanto natural o seu aspecto encerra!
Junto à paisagem verde, a igreja branca, o bando
Das casas, que se vão, pouco a pouco, apagando
Com o nevoento perfil nostálgico da serra...

Com o seu povo feliz, que ri das próprias mágoas,
Entre os três rios, lembra uma ilha, alegre e linda,
A cidade sorrindo aos ósculos das águas.

Terra para se amar com o grande amor que eu tenho!
Terra onde tive o berço e de onde espero ainda
Sete palmos de gleba e os dois braços de um lenho.
Da Costa e Silva (1885-1950)