28 de fevereiro de 2010

Os Ossos do Cacique

Atraído por histórias-não-contadas, o viajante percorre as vielas da cidade e se embrenha nas facetas do desconhecido. Nos sonhos sublimados, ele implorava para que a estrela no alto da Serra Azul lhe indicasse o caminho, assim como os três reis magos foram guiados à manjedoura, na noite de Natal. A estrela, entretanto, aos olhos dos desbravadores, revelou-se simplesmente uma cruz deixada no topo da Serra por algum pagador de promessas. A guia celeste, agora sob o manto da realidade, perdeu o encanto que lhe conferia o ar divino. Porém, no retiro onírico do viajante sonhador, nenhuma lenda perde sua essência. Ele ainda sonha, implorando para que a cruz-estrela da Serra Azul lhe indique o caminho.

Ora, ali, outrora, um Gonçalo Lourenço Botelho de Castro não teria a mesma facilidade ao intentar estabelecer-se em terras tão disputadas. Sem estrelas ou cruzes, mas com a promessa de progresso, a luta desleal travada na terra nada-santa revelou-se sangrenta e desnecessária, afinal os jesuítas já haviam sido expulsos e os acoroás e gueguês encontravam-se encurralados, desestruturados e paralisados. Talvez o sangue derramado tornasse mais fértil o solo enlutado, tal como as terras fecundas, testemunhas dos campos de concentração. Mas a matança em grande escala não mereceu tamanha consternação. Um Bruenque, cujos ossos foram esquecidos na Vila de São Gonçalo, poderia fazer brotar ouro, como se seus restos mortais fossem preciosas sementes, e, ainda assim, seu nome não seria entronizado como um grande Governador, ou lembrado como um herói tentando salvar, em vão, seu povo e sua história. Enfim, os gentios foram silenciados e a paz se estabeleceu na terra do santo de carne, osso e título nobiliárquico. Multiplicaram-se os azulejos portugueses, os sobrenomes pomposos e estrelas indicando caminhos virtuosos (ou cruzes apontando sonhos mortos).


Por A. C. Nunes-Carvalho

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