5 de outubro de 2010

Um não-lugar para chamar de meu

Por A. C. Nunes-Carvalho

As cidades se reinventam com projetos arquitetônicos voluntariosos, que acompanham a rapidez e a diversidade dos acontecimentos modernos, subjugando "lugares de vida produzidos por uma história mais antiga e mais lenta"*.

No Piauí, o resultado mais significativo desta equação pode ser facilmente exemplificado pelo surgimento de imponentes construções, em detrimento da conservação do casario colonial das cidades históricas. Pululam progressos, desconcertando o estilo arquitetônico e transformando harmonia em ecletismo desmedido.

Aos olhos de um observador mais detalhista, tal configuração pareceria fora de contexto, alienada ou contraprodutiva, causando desconforto, ao invés de propiciar empatia, em decorrência da sobrecarga de informações visuais, caracterizando, assim, os não-lugares.

Emerge, então, a necessidade de resgatar as memórias: no mundo fragmentado, o derradeiro movimento de sobrevivência é retornar à tradição. O ambiente tornar-se-ia confiável e circunscrito, refletindo fielmente a identidade do povo que nele habita.

* AUGÉ, Marc. Não-Lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Papirus: Campinas, 1994.


Pátio interno de um casarão colonial de Regeneração (PI), demolido em outubro de 2010 para a construção de uma loja de conveniência.

Interior do casarão colonial

Detalhe do mosaico que recobria o piso do casarão