11 de abril de 2010

Vou-me embora pra Amarante.

Por A. C. Nunes-Carvalho


"A felicidade nos deixa meio palermas", concluiu o "filósofo" Emanuel Feitosa*. Eu não diria "palermas"; eu diria "não-humanos". Ora, o que caracteriza um humano é a consciência da realidade; consciência, na maioria das vezes, extremamente moralizada. Tal moralidade só sobrevive e se multiplica sob o olhar do outro. Um olhar que vigia e dita regras, pelo menos para aqueles que pretendem manter-se em sociedade. Com as restrições, próprias da racionalidade, a felicidade reduz-se a simples instantes, onde um "humano" consegue ser "não-humano": comer o que quer, sem se preocupar com a ditadura do corpo perfeito; falar alto, sem medo de sofrer represálias; sorrir intensamente, não ofendendo ou irritando a pessoa ao lado, porque a pessoa ao lado simplesmente não está controlando seus passos.

Controlar os passos é o artifício mais utilizado por quem tem medo das “pedras” que atravessam seu caminho. Mais regras são lançadas para impedir que as “pedras” se amontoem irreversivelmente. Daí, surgem mais bancos, mais dinheiro, mais sinais, mais carros, mais objetos inúteis, com um único objetivo de diferenciar o que deve ou não permanecer no caminho. Certamente, não são as “pedras”.

Um "não-humano" provavelmente agregaria as “pedras” à sua coleção "inconsciente", ao invés de tirá-las do caminho. Diminuiriam os bancos, os carros, as cercas e a distância entre uma “pedra” e outra; todas "não-humanas". Nas rodas de conversa "não-humanas", as melhores piadas teriam os mesmos protagonistas: homens criando regras que controlam homens! E, no final, os heróis de fachada precisariam construir castelos no ar, inalcançáveis como Pasárgada, só para amenizar o peso da parafernália que lhe impuseram nas costas: fios que controlam seus movimentos, ou melhor, regras que ditam o próximo passo.

Talvez este discurso estivesse oculto nas palavras de Coelho Neto, ao citar Sylvio Romero, no discurso de recepção de Osório Duque Estrada na Academia Brasileira de Letras"**:

"Ninguem imagina como eu quero bem a isto, como acho isto bonito! Este sol que não se cansa de nos dar belleza (sic) e fartura e dengue ás (sic) nossas mulheres, palavra que, ás (sic) vezes, tenho vontade de o adorar porque é verdadeiramente um deus! Qual literatura! Si (sic) vocês querem poesia, mas poesia de verdade, entrem no povo, mettam-se por ahi (sic), por esses rincões, passem uma noite num rancho, á beira do fogo, entre violeiros, ouvindo trovas de desafio. Chamem um cantador sertanejo, um desses caboclos destorcidos, de alpercatas e chapéo (sic) de couro, e peçam-lhe uma cantiga. Então, sim.

Poesia é no povo. Poesia para mim é agua em que se refresca a alma e esses versinhos que por ahi (sic) andam, muito medidos, podem ser agua, mas de chafariz, para banhos mornos em bacia, com sabonete inglez (sic) e esponja. Eu, para mim, quero aguas fartas – rio que corra ou mar que estronde. Bacia é para gente mimosa e eu sou caboclo, filho da natureza, criado ao sol
”.

Se Coelho Neto tivesse conhecido Amarante, e observado suas belas paisagens, assim como observara Teresina, conferindo-lhe o título de Cidade Verde, talvez, do alto do mirante, gritaria algum título poético que ficaria encravado nos livros de literatura e na alma dos amarantinos, como uma Pasárgada ao alcance de todos, humanos e "não-humanos". Só que, estes últimos, filhos da natureza, criados ao sol, veriam a poesia que escorre nos rios Canindé, Mulato e Parnaíba; cantariam em versos o sorriso descontraído do seu povo; seriam amigos do rei, porque todo mundo é rei; e saberiam valorizar a poesia de verdade, a poesia que vem do povo; as regras hipócritas não os sobrepujariam; e o olhar do outro não seria uma arma cruel, certeira e injusta. A civilização seria outra, e as “pedras”, finalmente, seriam chamadas de homens.

* Estudante do Curso de Direito, em Teresina-PI.
**MOTTA, Leonardo. Cantadores: Poesia e Linguagem do Sertão Cearense. Rio de Janeiro: A.J. de Castilho, 1921.

1 de abril de 2010

Meus Sonhos, Meus Amores

Por A. C. Nunes-Carvalho

O artista faz correr vinho no leito do rio, só para lembrar que é água, na verdade, que corre e atravessa nossos caminhos, assim como os becos e os vultos de rua revelados em histórias e retratos que os olhares desatentos deixaram de notar.

Enquanto aguardam as pinceladas, ou as palavras em verso e prosa, os acontecimentos são subjugados pelo tempo e relegados ao esquecimento. Não é preciso romper com os hábitos tolos, desprovidos de encanto à primeira vista, pois é justamente aí que se encontra o verdadeiro encantamento. Também não é preciso apontar mil holofotes em direção à agulha no palheiro - não podemos esquecer que o excesso de luz cega tanto quanto a falta. O que vale é transformar a realidade em uma parte indispensável de nós mesmos. E se somos seres de carne e pensamento, todas as nossas partes, indispensáveis ou não, estão sujeitas aos mandos e desmandos da imaginação. Não é possível fugir de tal preceito. Ou é?

"Existirmos: a que será que se destina?" – perguntaríamos atordoados diante do espelho. Quanto, da realidade, perdemos? Qual parte ficou esquecida? Quando foi que a imaginação nos esqueceu em alguma fila indiana (de carros, gente ou gado)?

O escritor e jurista Manoel Paulo Nunes, em 1976, lembrara daqueles que "representam a poesia em estado elementar", ao compará-los com Maria do Socorro Santana Ramos* em seu livro de estréia "Meus Sonhos, Meus Amores". A Dona Socorro Santana, regenerense, transformava o cotidiano em poesia e melodia, trazendo à tona os fatos sob os auspícios da sua imaginação. Parece que, naquele tempo, "as nascentes do rio Mulato borbulhavam, puras e cristalinas". Hoje, o que nos resta é a destruição gradativa da vegetação nativa em prol da monocultura de eucalipto e da movimentação momentânea da economia da região. Mais cedo ou mais tarde, quando as reservas secarem e o cultivo da matéria-prima para queimar nos fornos for inviável, não haverá mais motivos para os nobres responsáveis pelo progresso continuarem na terra de Bruenque.

No tempo em que a D. Socorro Santana criava seus versos diante das paisagens regenerenses, as nascentes borbulhavam mais, as "velhas mangueiras" ainda vigiavam passos, e o "verde das bananeiras" e das "canas brejeiras" ainda faziam "gosto de ver".

Hoje, nos curvamos diante dos sinais vermelhos, dos pastos verdes para o gado contente (!) e dos crachás determinando a nossa identidade. "Existirmos: a que será que se destina?"

*Filha de Abdon José de Santana e Luisa Oliveira Santana. Casada com Raimundo Moreira Ramos e mãe de nove filhos. Membro da União Brasileira de Escritores – UBE/ Piauí. Fundadora da Academia de Letras do Médio Parnaiba, sediada em Amarante-PI.



Vídeo garimpado no youtube, publicado por "funaguas - Fundação Águas do Piauí", em 20 de fevereiro de 2010.


Vídeo garimpado no youtube, publicado por "funaguas - Fundação Águas do Piauí", em 14 de março de 2010.