10 de março de 2010

Romance 7 X 7


Os detalhes da história ficam guardados a sete chaves na memória de quem os vivenciou. Na maioria das vezes se perdem embaixo de sete palmos de gleba. Outros, porém, são astuciosamente desenterrados, emergindo vívidos nas lembranças recentes. A tarefa é árdua, mas o espectador atento a desempenha com ares de criança, ao descobrir uma nova aventura...

CAPÍTULO I:

No século XIX, uma Maria Pessoa de Neiva, única herdeira da Data Mulato, ficara viúva logo nos primeiros anos de casamento, com apenas 20 anos de idade. A viúva continuara mantendo todos os escravos e a mesma fartura diária. Desprovida de quaisquer dons para a administração de terras, nem mesmo um mínimo apego aos bens materiais, doara a fazenda aos escravos que a acompanharam durante toda vida. Morrera cega, paupérrima, mas jamais fora abandonada.

CAPÍTULO II:

Maria Pessoa de Neiva tivera apenas uma filha: Ana Pessoa do Nascimento, casada com Justo de Barros Marinho. O casal teve quatro filhos. Um deles, Martinho Barros do Nascimento, casou-se com Elvina Costa do Nascimento. Tiveram sete filhos.

CAPÍTULO III:

Uma das filhas do casal Elvina e Martinho, Joana Francisca do Chantal Costa Barros, nascida em Angical, casara-se com Raimundo da Silva Nunes, amarantino, filho de Josefa Gomes e João Ribeiro Nunes, ricos herdeiros do Cel. Doca e do Cel. Gil Nunes, respectivamente. Porém, desprovido de quaisquer dons para a administração de bens, João Nunes, apesar da inteligência e cultura invejáveis, morrera paupérrimo, mas não abandonado.

CAPÍTULO IV:

Josefa Gomes e João Nunes tiveram sete filhos. Um deles, o já citado Raimundo Nunes, do matrimônio gerara oito filhos. Um deles, Eugênio Pacceli do Chantal Nunes, acabara tornando-se Prefeito de Jardim do Mulato, outrora Data Mulato.

CAPÍTULO V:

Os oito filhos do casal Raimundo Nunes e Joana Chantal, saíram do interior em que nasceram (Regeneração) para estudar na capital piauiense. Lá, a filha mais velha do casal (Maria Orquidéa do Chantal Nunes) conhecera, na Faculdade de Direito, um amarantino (Marcelino Leal Barroso de Carvalho), filho de Melquíades Barroso de Carvalho e Maria de Lourdes Pereira Leal. Casaram-se em 1980.

CAPÍTULO VI:

Melquíades Barroso de Carvalho, depois de viúvo, casara-se com a afilhada de sua finada esposa (uma jovem de 16 anos), e tivera doze filhos. Melquíades Barroso, autodidata, mesmo analfabeto, aprendera sozinho os ofícios de marcenaria, de engenharia e arquitetura. Suas incursões nestas difíceis áreas ainda hoje são lembradas por grandes nomes da sociedade piauiense. Sua última esposa, jovem guerreira, lutou para educar os doze filhos e ainda encontrou forças para retomar os estudos e tornar-se professora.

CAPÍTUO VII:

Maria de Lourdes Pereira Leal de Carvalho, apesar da árdua tarefa de educar doze filhos, desenvolvera seus dons artísticos (bordado, pintura e literatura de cordel) consumando a herança genética, cujos representantes multiplicaram-se na família Pereira (vale a pena citar Josefa Pereira, Raimunda Nonata Pereira da Costa e Maria da Anunciação Pereira da Costa, mais conhecidas como Mãe Dedé, Mundinha e Mariquinha).

CAPÍTULO VIII:

A família Pereira, cuja herança africana e portuguesa permitiu que aflorassem dons artísticos únicos, foi a responsável pelo resgate da Festa do Divino Espírito Santo em Amarante-PI. As festividades em nome do Espírito Santo aconteciam timidamente alcançando apenas alguns bairros e algumas famílias específicas. Na década de 50, a Mãe Dedé, devota inconteste, vendo o sobrinho neto (filho de Maria de Lourdes) mortalmente doente, lançou uma promessa ao Espírito Divino, que milagrosamente o curou. Desde então, a Festa do Divino Espírito Santo passou a ser uma incumbência da devota, como pagamento da promessa. Com a morte da Mãe Dedé, em 1984, atendendo ao seu último pedido, as sobrinhas Maria de Lourdes, Mundinha e Mariquinha, juntamente com o sobrinho neto milagrosamente salvo, Marcelinho Leal Barroso de Carvalho, assumiram os encargos da Festa.

CAPÍTULO IX:

A Festa do Divino Espírito Santo ganhou grande notoriedade com o passar dos anos, permitindo, inclusive, o surgimento do Museu do Divino de Dona Dedé. O Museu conserva, além de um rico acervo iconográfico, as marcas da história amarantina encravadas na arquitetura colonial, da casa secular que o abriga. O resgate dos elementos arquitetônicos da casa e a valorização da cultura amarantina representada pelas manifestações religiosas, provocaram um intenso movimento social e cultural que culminou na reforma de várias casas em processo de tombamento e a descoberta de importantes acervos históricos, anteriormente negligenciados.

CAPÍTULO X:

Com o interesse pelos museus de Amarante renovado, as portas de verdadeiros museus domiciliares abriram-se, e o Museu Odilon Nunes ganhou a importância devida, além de retomar suas atividades culturais (exposição de obras de artistas locais, acervo bibliográfico e o próprio acervo museológico). Odilon Nunes, cuja residência tornou-se o museu oficial da cidade, era irmão de João Ribeiro Nunes, avô de Maria Orquidéa Chantal, que se casara, em 1980, com Marcelino Barroso. Ora, o entrelaçamento das histórias deste povo (Chantal, Barros, Nunes, Pereira, Leal, Barroso e Carvalho = sete), somente se equipara ao entrelaçamento das cidades Jardim do Mulato, Angical, Regeneração e Amarante, quando, outrora, denominavam-se, apenas, Vila de São Gonçalo.

A HISTÓRIA CONTINUA...


A.C. Nunes-Carvalho

Um comentário:

  1. Encho-me de orgulho por compartilhar desta riqueza de lembranças que edificam nossa terra piauiense, tesouro de nossas raízes que se entrelaçam e criam fortes liames de amor e luta.

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