13 de março de 2010

Ela canta, canta elegante nos becos de Amarante...


A presença humilde da D. Socorro passaria despercebida, se não fosse seu humor incontestável e a riqueza das histórias que conta. Autodenominada de "Terceira pessoa do seu Ninga*", encanta os ouvintes ao promover um verdadeiro resgate histórico da cultura amarantina.

Seu notável espírito jovial emerge nas rodas de conversa cotidianamente promovidas nas residências da cidade. Seu legado cultural merece respeito e visibilidade.

A característica essencial dos contadores de histórias é a doação desinteressada de sonhos. E isso a D. Socorro faz com maestria, ao preencher as mentes amarantinas com peripécias quixotescas. Vez por outra é possível vê-la desembainhando sua espada e enfrentando moinhos de vento, tal qual um cavaleiro andante rumo à gloriosa aventura imaginária.

Somente um olhar visionário poderia enxergar a poesia nas cantigas entoadas pelos pescadores à beira do rio Canindé, para espantar o cansaço da labuta diária. Aos olhos da "Terceira pessoa do seu Ninga", a beleza está na simplicidade, e, sob sua vigilância, jamais poderá ser negligenciada.

Cabe aos conterrâneos e aos admiradores da D. Socorro, acompanharem sua jornada... Assim, a história não será esquecida, e "continua a galopar".



Ora o meu cavalo é piancó
Ora o meu cavalo é píancó
Ora o meu cavalo é piancó
Bonito pra vadiar
Cavaleiro troca o par.

Ele corre, corre elegante
Ele corre, corre elegante
Ele corre, corre elegante
Ne estrada de Amarante - bis.

Ele corre, corre e bate o pé
Ele corre, corre e bate o pé
Ele corre, corre e bate o pé
Vai parar no Canindé - bis.

Upa, upa, upa cavalinho
Upa, upa, upa cavalinho
Upa, upa, upa cavalinho
Continua a galopar - bis.


Por A. C. Nunes-Carvalho


Vídeo caseiro garimpado no youtube, publicado por gongon95 em 3 de setembro de 2009.

*Ninga, no dialeto amarantino significa Ninguém.

10 de março de 2010

Romance 7 X 7


Os detalhes da história ficam guardados a sete chaves na memória de quem os vivenciou. Na maioria das vezes se perdem embaixo de sete palmos de gleba. Outros, porém, são astuciosamente desenterrados, emergindo vívidos nas lembranças recentes. A tarefa é árdua, mas o espectador atento a desempenha com ares de criança, ao descobrir uma nova aventura...

CAPÍTULO I:

No século XIX, uma Maria Pessoa de Neiva, única herdeira da Data Mulato, ficara viúva logo nos primeiros anos de casamento, com apenas 20 anos de idade. A viúva continuara mantendo todos os escravos e a mesma fartura diária. Desprovida de quaisquer dons para a administração de terras, nem mesmo um mínimo apego aos bens materiais, doara a fazenda aos escravos que a acompanharam durante toda vida. Morrera cega, paupérrima, mas jamais fora abandonada.

CAPÍTULO II:

Maria Pessoa de Neiva tivera apenas uma filha: Ana Pessoa do Nascimento, casada com Justo de Barros Marinho. O casal teve quatro filhos. Um deles, Martinho Barros do Nascimento, casou-se com Elvina Costa do Nascimento. Tiveram sete filhos.

CAPÍTULO III:

Uma das filhas do casal Elvina e Martinho, Joana Francisca do Chantal Costa Barros, nascida em Angical, casara-se com Raimundo da Silva Nunes, amarantino, filho de Josefa Gomes e João Ribeiro Nunes, ricos herdeiros do Cel. Doca e do Cel. Gil Nunes, respectivamente. Porém, desprovido de quaisquer dons para a administração de bens, João Nunes, apesar da inteligência e cultura invejáveis, morrera paupérrimo, mas não abandonado.

CAPÍTULO IV:

Josefa Gomes e João Nunes tiveram sete filhos. Um deles, o já citado Raimundo Nunes, do matrimônio gerara oito filhos. Um deles, Eugênio Pacceli do Chantal Nunes, acabara tornando-se Prefeito de Jardim do Mulato, outrora Data Mulato.

CAPÍTULO V:

Os oito filhos do casal Raimundo Nunes e Joana Chantal, saíram do interior em que nasceram (Regeneração) para estudar na capital piauiense. Lá, a filha mais velha do casal (Maria Orquidéa do Chantal Nunes) conhecera, na Faculdade de Direito, um amarantino (Marcelino Leal Barroso de Carvalho), filho de Melquíades Barroso de Carvalho e Maria de Lourdes Pereira Leal. Casaram-se em 1980.

CAPÍTULO VI:

Melquíades Barroso de Carvalho, depois de viúvo, casara-se com a afilhada de sua finada esposa (uma jovem de 16 anos), e tivera doze filhos. Melquíades Barroso, autodidata, mesmo analfabeto, aprendera sozinho os ofícios de marcenaria, de engenharia e arquitetura. Suas incursões nestas difíceis áreas ainda hoje são lembradas por grandes nomes da sociedade piauiense. Sua última esposa, jovem guerreira, lutou para educar os doze filhos e ainda encontrou forças para retomar os estudos e tornar-se professora.

CAPÍTUO VII:

Maria de Lourdes Pereira Leal de Carvalho, apesar da árdua tarefa de educar doze filhos, desenvolvera seus dons artísticos (bordado, pintura e literatura de cordel) consumando a herança genética, cujos representantes multiplicaram-se na família Pereira (vale a pena citar Josefa Pereira, Raimunda Nonata Pereira da Costa e Maria da Anunciação Pereira da Costa, mais conhecidas como Mãe Dedé, Mundinha e Mariquinha).

CAPÍTULO VIII:

A família Pereira, cuja herança africana e portuguesa permitiu que aflorassem dons artísticos únicos, foi a responsável pelo resgate da Festa do Divino Espírito Santo em Amarante-PI. As festividades em nome do Espírito Santo aconteciam timidamente alcançando apenas alguns bairros e algumas famílias específicas. Na década de 50, a Mãe Dedé, devota inconteste, vendo o sobrinho neto (filho de Maria de Lourdes) mortalmente doente, lançou uma promessa ao Espírito Divino, que milagrosamente o curou. Desde então, a Festa do Divino Espírito Santo passou a ser uma incumbência da devota, como pagamento da promessa. Com a morte da Mãe Dedé, em 1984, atendendo ao seu último pedido, as sobrinhas Maria de Lourdes, Mundinha e Mariquinha, juntamente com o sobrinho neto milagrosamente salvo, Marcelinho Leal Barroso de Carvalho, assumiram os encargos da Festa.

CAPÍTULO IX:

A Festa do Divino Espírito Santo ganhou grande notoriedade com o passar dos anos, permitindo, inclusive, o surgimento do Museu do Divino de Dona Dedé. O Museu conserva, além de um rico acervo iconográfico, as marcas da história amarantina encravadas na arquitetura colonial, da casa secular que o abriga. O resgate dos elementos arquitetônicos da casa e a valorização da cultura amarantina representada pelas manifestações religiosas, provocaram um intenso movimento social e cultural que culminou na reforma de várias casas em processo de tombamento e a descoberta de importantes acervos históricos, anteriormente negligenciados.

CAPÍTULO X:

Com o interesse pelos museus de Amarante renovado, as portas de verdadeiros museus domiciliares abriram-se, e o Museu Odilon Nunes ganhou a importância devida, além de retomar suas atividades culturais (exposição de obras de artistas locais, acervo bibliográfico e o próprio acervo museológico). Odilon Nunes, cuja residência tornou-se o museu oficial da cidade, era irmão de João Ribeiro Nunes, avô de Maria Orquidéa Chantal, que se casara, em 1980, com Marcelino Barroso. Ora, o entrelaçamento das histórias deste povo (Chantal, Barros, Nunes, Pereira, Leal, Barroso e Carvalho = sete), somente se equipara ao entrelaçamento das cidades Jardim do Mulato, Angical, Regeneração e Amarante, quando, outrora, denominavam-se, apenas, Vila de São Gonçalo.

A HISTÓRIA CONTINUA...


A.C. Nunes-Carvalho