28 de fevereiro de 2010

Os Ossos do Cacique

Atraído por histórias-não-contadas, o viajante percorre as vielas da cidade e se embrenha nas facetas do desconhecido. Nos sonhos sublimados, ele implorava para que a estrela no alto da Serra Azul lhe indicasse o caminho, assim como os três reis magos foram guiados à manjedoura, na noite de Natal. A estrela, entretanto, aos olhos dos desbravadores, revelou-se simplesmente uma cruz deixada no topo da Serra por algum pagador de promessas. A guia celeste, agora sob o manto da realidade, perdeu o encanto que lhe conferia o ar divino. Porém, no retiro onírico do viajante sonhador, nenhuma lenda perde sua essência. Ele ainda sonha, implorando para que a cruz-estrela da Serra Azul lhe indique o caminho.

Ora, ali, outrora, um Gonçalo Lourenço Botelho de Castro não teria a mesma facilidade ao intentar estabelecer-se em terras tão disputadas. Sem estrelas ou cruzes, mas com a promessa de progresso, a luta desleal travada na terra nada-santa revelou-se sangrenta e desnecessária, afinal os jesuítas já haviam sido expulsos e os acoroás e gueguês encontravam-se encurralados, desestruturados e paralisados. Talvez o sangue derramado tornasse mais fértil o solo enlutado, tal como as terras fecundas, testemunhas dos campos de concentração. Mas a matança em grande escala não mereceu tamanha consternação. Um Bruenque, cujos ossos foram esquecidos na Vila de São Gonçalo, poderia fazer brotar ouro, como se seus restos mortais fossem preciosas sementes, e, ainda assim, seu nome não seria entronizado como um grande Governador, ou lembrado como um herói tentando salvar, em vão, seu povo e sua história. Enfim, os gentios foram silenciados e a paz se estabeleceu na terra do santo de carne, osso e título nobiliárquico. Multiplicaram-se os azulejos portugueses, os sobrenomes pomposos e estrelas indicando caminhos virtuosos (ou cruzes apontando sonhos mortos).


Por A. C. Nunes-Carvalho

12 de fevereiro de 2010

Antônio Francisco da Costa e Silva


Antônio Francisco da Costa e Silva nasceu em Amarante, no Piauí, em 29 de novembro de 1885. Formou-se pela Faculdade do Direito do Recife. Foi funcionário do Ministério da Fazenda, tendo ocupado os cargos de Delegado do Tesouro no Maranhão, no Amazonas, no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Viveu não só nas capitais desses estados, mas também, por mais de uma vez, em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Jornalista. Recolheu-se ao silêncio, demente, em 1933. Faleceu em 29 de junho de 1950.

Publicou os seguintes livros de poemas: Sangue (1908), Zodíaco (1917), Verhaeren (1917), Pandora (1919) e Verônica (1927). Organizou ele próprio uma Antologia de seus versos, cuja primeira edição é de 1934. Posteriormente saíram mais duas edições; a última em 1982. De suas Poesias Completas publicaram-se três edições: em 1950, 1975 e 1985.


Por Melquíades Filho

Amarante


Por Ana Candida Nunes Carvalho

A cidade se ergue, sorrateira, num suspiro de progresso, desmembrando sonhos e promessas proféticas no encalço dos caminhos guiados pelas curvas do Velho Monge. Os olhos tentam capturar a alma que atravessa as paredes resistentes às intempéries, como um escultor tentando, em vão, imitar a vitalidade que exala da geografia humana.

Amarante nos envolve, sublime, com sua espessa neblina matutina, e se transforma, inteira, em poesia e história, logo no primeiro olhar do visitante. Ergue as cortinas num lance súbito, desafiando o expectador a um encontro. Seus becos, suas igrejas, seu mirante revelam-se beijos cálidos e úmidos, como as tardes de verão sob o sol poente.


A minha terra é um céu, se há um céu sobre a terra;
É um céu sob outro céu tão límpido e tão brando,
Que eterno sonho azul parece estar sonhando...
Sobre o vale natal que o seio à luz descerra...

Que encanto natural o seu aspecto encerra!
Junto à paisagem verde, a igreja branca, o bando
Das casas, que se vão, pouco a pouco, apagando
Com o nevoento perfil nostálgico da serra...

Com o seu povo feliz, que ri das próprias mágoas,
Entre os três rios, lembra uma ilha, alegre e linda,
A cidade sorrindo aos ósculos das águas.

Terra para se amar com o grande amor que eu tenho!
Terra onde tive o berço e de onde espero ainda
Sete palmos de gleba e os dois braços de um lenho.
Da Costa e Silva (1885-1950)